"Ajusto-me a mim, não ao mundo." (Anais Nin)
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

It´s my life


A vida é mesmo uma sacana. Quase nunca um momento difícil vem sozinho. As pessoas costumam perder o emprego, pegar o marido com a melhor amiga na cama, bater o carro e ficar doente na mesma semana. As felicidades por sua vez, vêm em doses homeopáticas. Você é promovido, mas está só. Se livra de um relacionamento ruim, mas todos seus amigos estão casados. Emagrece, mas não tem grana pra comprar roupa nova. A vida é feita basicamente de pequenos prazeres e grandes tragédias.

Feliz de quem tem fé e acredita que em algum lugar da eternidade haverá justiça pros sofredores. Eu costumava ser otimista de carteirinha e achar que tudo um dia sempre melhora. O amor da sua vida está escrito, seus filhos serão lindos e saudáveis, você terá uma vida longa e boa ao lado dos seus queridos. Mas o tempo passa e a coisa vai desmoronando ao seu redor e você percebe que passa a maior parte do tempo tentando manter a cabeça fora d´água.

Então eu concluí que, já que não tenho controle sobre as merdas que acontecem, devo dedicar meu tempo a viver os prazeres. Chega de auto-indulgência, chega de negligenciar os bons amigos porque a vontade de sumir debaixo das cobertas é maior. Os dias ruins não cessarão de acontecer. Dívidas chegam, amores te decepcionam, pessoas morrem... O grande desafio é estar aqui, vivendo o pequenino minuto do banho quente, da cerveja gelada.

Se der vontade de chorar, chore. Um dia de festa da auto-piedade é permitido de vez em quando. Pijama o dia todo, comida calórica, programas idiotas na TV, álcool, ligações indevidas... Mais que isso, é reconhecer a derrrota. É dizer pra Vida que ela ganhou, que você foi dobrado e irremediavelmente partido. Eu não quero ser a perdedora da vez. Eu levanto minha cabeça, passo um batom, olho bem na cara dela e digo pra que fique aí com seus dramas que eu quero mais é curtir minhas pequenas alegrias!

domingo, 3 de agosto de 2008

Cão de guarda


Ela não chegou pra nós filhote, pequena e fofa. Veio grande, maltratada e decepcionada com a vida. Diante da mão estendida pro afago, ela se encolhia e tremia, esperando pelo castigo. Com o tempo ela aprendeu a confiar. Entendeu que era amada. E retribuiu esse amor como eu nunca tinha visto nenhum cão fazer antes. Ela é do tamanho de um bezerro. Mas pensava que era pequena: queria, colo, pulava pra lamber o rosto da gente... E me deixava cheia de roxos e arranhões. É carente, depois que aprende a gostar, lambe o cotovelo de quem está sentado e coloca a cabeça debaixo da mão da qual ela quer o carinho. Ela toma café comigo, vinha pedir o seu pedaço de queijo todos os dias. Não gosta de ração, é preciso disfarçar com um pouco de comida. E é só ver alguém de tênis que ela começa a chorar desesperada pedindo pra sair pra passear. E quando vai, é aquela festa! Ela sai latindo e correndo como se quisesse contar pra todo mundo que está fora de casa.

Durante dez anos ela esteve ao meu lado, me protegendo, me fazendo companhia e cuidando de mim. Há algum tempo, ela começou a mancar. A veterinária disse que poderia ser um tumor ou algo relacionado à idade. Há dois dias ela teve uma fratura patológica: a patinha se quebrou sem nenhuma razão. Fomos ao hospital e lá soubemos que ela tem cancêr nos ossos. O médico me deu a opção de amputar a pata e fazer quimio ou sacrificá-la pois a fratura não tem cura. Eu me recusei a fazer a primeira pois acho que é um sofrimento enorme para uma sobrevida de no máximo um ano. Quanto à segunda opção, pode parecer banal pra muitos, mas eu não consigo me forçar a tomar essa decisão. Sou incapaz de pensar que posso ser responsável por algo dessa monta.

Há dois dias estou tentando fazer a vida dela feliz. Ela fica deitada na caminha, aparentemente sem dor (está fortemente medicada), comendo muito todas as coisas das quais gosta. Eu olho pra ela e, mesmo com a perninha machucada, ela ainda fica feliz em me ver, em comer, em dormir. Abana o rabo, dá aquelas lambidas bem molhadas. Eu queria saber o que ela escolheria pra si. E eu queria que ela soubesse que o que quer que eu faça é por amor, é pela felicidade dela. E mais do que tudo eu queria que, se for a hora dela, que ela se vá sem intervenções e sem dor.

PS: Nesse exato momento ela está latindo de volta pros cachorros da rua como sempre fez. Parece dizer "a casa é minha, estou aqui, tomem cuidado". Sim, ela ainda está aqui...